No dia 25 de junho, postei aqui uma matéria sobre a AVON ter deixado de vender os livros do pastor homofóbico Silas Malafaia [confira aqui]. Tentei entrar em contato com Sergio Viula, autor do abaixo assinado online da All Out em abril deste ano [2012], muito simpático, ele respondeu algumas perguntas que nos ajudam a entender o que houve, de fato.
Sergio foi pastor e se dedicou à cura de homossexuais. Ele participou da fundação do MOSES [Movimento pela Sexualidade Sadia] em 1997 e trabalhou nesta entidade tentando curar homossexuais até 2003. Segundo ele, esse tempo foi o bastante para entender que todo o esforço era vão:
“Este grupo pretendia ajudar pessoas homossexuais a se tornarem heterossexuais. De 1997 a 2003, eu vi o suficiente para saber que essa mudança não acontecia de fato, e somando-se a isso o tempo todo em que estive na igreja e fui pastor, posso dizer que nunca encontrei um caso de verdadeira mudança. Foi por isso que, em 2004, eu vim a público denunciar a falácia desse tipo de promessa. Isso aconteceu, porque a revista Época estava interessada em saber mais a respeito desse assunto, por causa de uma polêmica gerada por um deputado e pastor da Assembleia de Deus na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro”.
Quando perguntei sobre as motivações que o levou a questionar a empresa de cosméticos sobre a venda de livros homofóbicos do pastor Silas Malafaia, ele citou a homofobia e o empenho de Malafaia em criticar os homossexuais, o compromisso que a AVON selou pelos direitos humanos e a possibilidade de vender os seus livros, expondo as suas opiniões em outros espaços: “Primeiro, o fato de que esse pastor usa suas ferramentas midiáticas para espalhar preconceito contra os homossexuais... Segundo, a AVON firmou compromisso com o Human Rights Campaign que textualmente diz que ela não apoiará organizações que discriminem as pessoas por orientação sexual ou de gênero... Terceiro, o referido pastor pode vender seus livros através de suas igrejas, das livrarias evangélicas, de seu telemarketing, etc”.
Segundo alguns sites, a gota d’água foi o fato de Sergio ter encontrado no catálogo o livro A Estratégia: o plano dos homossexuais para transformar a sociedade. Porém, “isso foi um equívoco do jornalista que fez a entrevista. Eu não falei desse livro. O que eu disse é que o livro dele ‘Vínculos do Amor’ difamava a homossexualidade. Era esse livro que constava no catálogo daquele mês”. E brinca: “Quando eu tiver oportunidade de ler esse lixo sem gastar um centavo, lerei. Pode ter certeza. (risos)”.
Sergio acredita que existe uma conveniência silenciosa sobre conteúdos homofóbicos e que por isso os livros com esse teor preconceituoso deveriam estar fora do mercado. “Provavelmente, se fosse contra negros, judeus e índios, esse livro já teria sido banido”.
Certo juiz proibiu a venda do livro “Lampião: o mata sete”, porque trazia outra versão da vida do cangaceiro, apresentando um homem bissexual e apaixonado pelo mesmo homem que sua esposa, Maria Bonita, o teria traído. Esse é um exemplo fantástico para demonstrar a homofobia "nossa de cada dia". “De tudo o que Lampião fez na vida, amar um homem e uma mulher pode ter sido a única coisa que realmente mereça aplausos”. Já alguns livros da editora de Malafaia, “denigrem, difamam e incitam o ódio contra uma minoria já vulnerável na sociedade”.
Em 2006 Silas realizou uma manifestação diante do Congresso Nacional contra a lei que criminalizava a homofobia. Segundo ele, os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo são a porta de entrada para a pedofilia. Em seu programa de tevê, ele disse que “Deveriam descer o porrete nesses homossexuais”, demonstrando o seu ódio, intolerância e incitando a violência contra os homossexuais. Ele respondeu processo, mas foi absolvido. “Não sei como um representante religioso pode dizer tamanha besteira. As estatísticas mostram que o número de meninas abusadas por homens é, de longe, maior do que o número de meninos abusados por homens. E ninguém dirá que a culpa é dos heterossexuais”.
Silas Malafaia é atualmente, um ícone religioso, super respeitado no Brasil. Porém, Sergio disse não ter medo de comprar a briga. “Minha indignação contra esse tipo de obscurantismo e homofobia é maior do que qualquer receio. Ele é muito midiático, espalhafatoso, mas existem muitos pastores que o desprezam. Isso sem falar em igrejas inteiras que jamais o convidariam para uma pregação”.
O companheiro de Sergio, Emanuel Façanha da Silva, era revendedor da AVON, reconhecido como “estrela”, e o fato de ter abandonado as vendas, por causa da presença dos livros veiculadores de mensagens homofóbicas, fez com que a empresa de cosméticos o procurasse para tentar fazer com que o vendedor voltasse a trabalhar com os produtos da empresa. Porém, até a data desta entrevista, Emanuel não tinha voltado. Ele “tem se dedicado à venda de produtos NATURA e outras marcas. Ele é maquiador profissional e as clientes dele sempre dizem que confiam nele. Ele trabalha com muita responsabilidade e, por isso, se ele oferecer outro produto, as clientes não hesitarão em experimentar”.
A AVON publicou uma nota pública no facebook, mas não comentou nada oficialmente sobre a retirada dos livros de Malafaia do catálogo de vendas. “A empresa nos escreveu, oferecendo uma explicação que me parece ser a resposta-padrão para qualquer impasse semelhante... A AVON tem mais de 125 anos de existência e nunca precisou dos livros do Malafaia para acumular riqueza, mas pode perder muito se tiver sua imagem permanentemente associada à homofobia e ao fanatismo”.
Já o site Gospel+ trouxe uma matéria divulgando uma nota de Silas Malafaia acerca do acorrido: “É importante esclarecer que em algumas quinzenas não sai propaganda do nosso produto. Isto é comum neste catálogo. Temos programação para até o final do ano, portanto, mais uma mentira e safadeza de ativistas gays, o que é bem peculiar do caráter deles”.
Enfim, mais um mês se passa e nada de livros de Malafaia na AVON.

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